Uma virada histórica contra o dinheiro do crime que virou briga por holofotes
Em poucas horas, um feito raro — mapear e travar a engrenagem financeira do PCC — virou palco de disputa política. O governo Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e a cúpula do governo federal correram para carimbar a autoria de uma ação que só andou porque muita gente, de órgãos diferentes, trabalhou junta e em silêncio por dois anos. O resultado: duas coletivas quase simultâneas, em São Paulo e em Brasília, versões concorrentes sobre a mesma investigação e um clima de vaidade que destoou do tamanho do caso.
O roteiro do embate foi explícito. De um lado, a Promotoria paulista apresentou a operação Carbono Oculto. Do outro, a Polícia Federal puxou as operações Quasar e Tank. No plano de fundo, ministros Ricardo Lewandowski (Justiça) e Fernando Haddad (Fazenda), o diretor-geral da PF, Andrei Passos, e até o estrategista de comunicação do Planalto, Sidônio Palmeira, acompanharam os anúncios. Na prática, o que poderia ter saído como uma operação única, com narrativa coordenada, foi fatiado em três. A mensagem pública ficou fragmentada justamente quando a cooperação entre os órgãos deveria ser celebrada.
Como o dinheiro escoava: de usinas ao mercado financeiro
O que a investigação reconstruiu é um esquema multifásico, sofisticado e de longo alcance. A porta de entrada estava no setor de açúcar e álcool e na formulação de combustíveis. Dali, a engrenagem avançava para a venda de combustível adulterado e a compra de postos, um clássico do crime organizado para misturar dinheiro limpo e sujo. A etapa seguinte foi a mais sensível: a infiltração em instituições financeiras e o uso de fintechs e fundos de investimento para lavar e multiplicar os ganhos.
Os relatórios fiscais apontaram a dimensão do fluxo: cerca de R$ 52 bilhões circularam por 1.000 estabelecimentos ligados, direta ou indiretamente, à facção entre 2020 e 2024, segundo a Receita Federal. Nesse período, os investigados acumularam mais de R$ 30 bilhões em ativos no Brasil — de participações em fintechs a propriedades rurais em áreas canavieiras, além de redes de postos. O fisco calcula que a sonegação passou de R$ 8 bilhões, somando tributos federais, estaduais e municipais.
O mapa da lavagem chamou atenção por um detalhe: a proximidade com o coração do mercado financeiro paulistano. Investigadores identificaram operadores com trânsito na Faria Lima, estruturação de fundos e camadas de transações que simulavam operações legítimas. No papel, parecia investimento. No extrato, era dinheiro do tráfico passando por filtros sucessivos para ganhar aparência de origem lícita.
Por que isso funciona? Porque o mercado de combustível é pulverizado, com milhares de CNPJs, margens apertadas e fiscalizações que variam muito de estado para estado. É um ambiente propício para fraudes de nota fria, triangulações e sonegação de ICMS, PIS/Cofins e Cide, o que facilita a mistura entre receita real e caixa do crime. Some a isso o boom de meios de pagamento digitais e de estruturas de investimento mais acessíveis — o bastante para profissionais espertos oferecerem "soluções" que mascaram a origem dos recursos.
O trabalho por trás desse cerco foi pesado. Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal cruzaram dados fiscais, transações financeiras, quebra de sigilo autorizada pela Justiça e auditorias em cadeia produtiva. O rastreamento foi além do padrão básico de conta bancária: chegou a contratos, participações societárias, estoques, notas de remessa e fluxos entre adquirentes de cartão, subadquirentes e carteiras digitais. A principal força da operação foi justamente a integração de bases e a disciplina para montar o quebra-cabeça inteiro antes de bater na porta dos alvos.
Os números contam parte da história. A outra parte é estrutural: a facção adotou há anos uma lógica de empresa — centraliza caixa, terceiriza risco, pulveriza operações e compra influência. Quando o crime opera como corporação, fica mais difícil desmontar. Não basta prender gerentes ou apreender carregamentos. É preciso travar o crédito, o giro e as prateleiras por onde o dinheiro sujo se mistura ao limpo. Foi isso que o conjunto das três operações fez: estrangulou o fluxo.
O problema é que, ao dividir a autoria e duplicar palanques, a política entrou pela porta errada. Em off, delegados e procuradores temem que a disputa por protagonismo atrapalhe a fase seguinte — a de manter as medidas cautelares, sustentar as teses nos tribunais e impedir que decisões sejam derrubadas por falhas de coordenação. É nessa etapa que advogados exploram lacunas, inconsistências e conflitos de competência. Quanto mais uníssona a narrativa técnica, mais difícil reverter bloqueios e quebras de sigilo.
O caso também joga luz sobre o papel dos órgãos de controle. O Coaf vem ampliando o monitoramento de operações atípicas de meios de pagamento e fundos. O Banco Central aperta a régua de compliance de fintechs. Juntas, essas peças ajudam a fechar as torneiras do dinheiro ilícito. Só que a efetividade depende de algo básico: continuidade. Fraudes em combustíveis e sonegação bilionária não se resolvem com um dia de operação. Exigem fiscalização reiterada, cruzamento de dados e alinhamento entre fisco, polícias e Ministério Público.
O que vem agora? Primeiro, a confirmação judicial de bloqueios e sequestro de bens — inclusive participações societárias e imóveis rurais. Depois, as denúncias formais, que precisam destrinchar a cadeia: quem formulou, quem vendeu, quem transportou, quem financiou e quem lavou. Sem essa linha do tempo, o risco é a responsabilização ficar só nos operadores intermediários, enquanto os arquitetos financeiros escapam.
Há ainda um ponto político incontornável. A segurança pública virou vitrine nacional, e o cerco ao dinheiro do crime dá voto e reforça imagem. Mas vaidade custa caro quando se trata de crime organizado. O recado dos investigadores é simples: o inimigo comum é eficiente, adaptável e paciente. Se o Estado pisca, ele volta a operar — agora com mais camadas e mais interpostas pessoas.
- R$ 52 bilhões: volume movimentado por 1.000 estabelecimentos ligados ao esquema (2020–2024).
- R$ 30 bilhões: ativos acumulados em participações, fazendas e postos, segundo a investigação.
- R$ 8 bilhões: estimativa de tributos sonegados na cadeia de combustíveis e nas operações financeiras.
- Três frentes: Carbono Oculto (MP-SP), Quasar e Tank (PF) anunciaram resultados em coletivas separadas.
Se a cooperação que fez esse caso avançar continuar firme, o dano ao caixa da facção tende a ser duradouro. A diferença entre um grande caso e uma grande mudança é o pós-operação: manter as torneiras fechadas, corrigir brechas regulatórias e blindar o trabalho técnico do ruído político.
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